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Entrevista com o ator e diretor Julio Mello

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Por Departamento de Comunicação
comunicacao@aracoiaba.sp.gov.br

Dando continuidade ao projeto “Encontro com o Artista”, hoje vamos conhecer o trabalho do ator, diretor e humorista Júlio Mello. O jovem artista Sorocabano de 32 anos, é formado pela Escola de Arte Dramática / ECA – USP, é cofundador do grupo teatral Coletivo Cê da cidade de Votorantim onde o ator reside e possui uma extensa bagagem de experiências com personagens e atuações.

Se vendo diante dessa nova e difícil situação de pandemia, ceifando sonhos e projetos em andamento, o artista decidiu se reinventar. Quebrou seus próprios bloqueios e resolveu se arriscar na criação de conteúdos para a internet. Com personagens como o carismático “Cerotinho”, o humorista tem feito a alegria dos seus seguidores e ganhado inúmeros fãs. Recentemente bateu a marca de 2 milhões de visualizações com um vídeo do personagem “Pandemilson”, que foi criado especialmente para falar de situações vividas neste momento de quarentena. Confira o nosso bate papo e conheça um pouco mais da história do ator!

Quando surgiu o desejo de ser artista ou descobriu sua paixão pelas artes?

Julio: Eu acho que não teve esse momento, de ter um desejo de ser artista ou descobrir essa paixão. Eu sempre fui artista, é uma coisa que nasceu comigo. As lembranças mais antigas que tenho da minha fase criança, eu lembro já sendo um artista. Pegando os objetos de casa e fazendo personagens. Lembro de todo o natal botar minha família toda no quintal e fazer cena pra eles. Então isso é uma coisa que veio de fábrica (risos).

Como foi seu trajeto até se tornar um ator profissional?

Julio: O meu trabalho como ator começou na infância. Participei do centro comunitário do bairro, apresentei peças na igreja onde inclusive fiz peças com a minha mãe. Depois com dez anos mais ou menos, entrei no meu primeiro curso de teatro. Lá fiz parte da companhia de teatro que coordenava o curso na época. Então, eu fiz conservatório em Tatuí e depois fui pra São Paulo, já com a intenção de me tornar um ator profissional. Consegui o meu registro e comecei a trabalhar profissionalmente. Meu primeiro espetáculo foi “Querô – uma reportagem maldita”, de Plínio Marcos. Tive a oportunidade de protagonizar essa peça, fazendo o personagem Querô. Foi um baita aprendizado, mas eu senti a necessidade de retomar os meus estudos. Então decidi prestar a Escola de Arte Dramática (EAD) na USP, que é a primeira escola de atores do país. No mesmo ano que entrei no EAD foi quando fundamos o Coletivo Cê, então paralelamente aos estudos, eu já adquiri experiência profissional.

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O Personagem Cerotinho tem conquistado os internautas com seu carisma e simplicidade – Foto: Arquivo Pessoal

Fale um pouco das suas experiências como ator.

Julio: Foram várias experiências, desde Jesus Cristo, com o circo Guaraciaba, até Querô, que é filho de uma prostituta. Acho que é um leque muito grande. Foi uma grande experiência com comédia também, eu sempre gostei muito de comédia, sempre gostei de fazer graça e de ser o engraçado da turma. Acho que isso me colocou no lugar de espontaneidade muito grande com personagens cômicos. Mas gosto de fazer os dramáticos também, principalmente na escola de arte dramática, onde tive a oportunidade de fazer personagens como Tiradentes e também o Luis do Graciliano Ramos, que é personagem do livro Angústia. Era uma peça bem intensa que eu tive a oportunidade de protagonizar. Eram duas horas em cena também.

Você é cofundador do Coletivo Cê, me fale um pouco dele, como nasceu esse projeto e o que ele significa pra você?

Julio: As primeiras ideias do que viria ser o Coletivo Cê, surgiram em São Paulo, comigo e com uma grande amiga chamada Janaina Silva, que é fundadora também. Nós morávamos juntos, éramos dois artistas num apartamento, cheio de ideias. Nós dois éramos do interior e criamos pequenas intervenções que propunham, de uma certa forma, uma ruptura no espaço/tempo do centro caótico de São Paulo. Íamos pra rua performar. E ai, surgiu um convite do Hércules, que também era nosso amigo, para escrevermos um espetáculo com a temática que estávamos experimentando na rua. Então surgiu o “Desterro”, que foi o primeiro espetáculo do Coletivo Cê, que a gente criou num casarão que estava fechado há muitos anos, o primeiro casarão a fornecer energia pra cidade de Sorocaba de 1915. Foi uma experiência riquíssima, foi aí que decidimos seguir e continuamos criando espetáculos como o “Desmedida” no bairro da chave, “Cunhatã”, “Para que eu possa existir nos próximos segundos”, depois veio o “1989”, que participou de muitos festivais e já ganhamos o prêmio de melhor espetáculo com ele. Tivemos também a oportunidade de fazer a parceria com o Circo-teatro Guaraciaba, no espetáculo “A paixão no circo”.

Fale um pouco dos seus trabalhos como diretor.

Julio: Assim como ator, eu também desde sempre fui diretor. Me lembro de pegar meus primos e levá-los pro quintal da minha avó e montar uma peça.  Pensava no figurino, no cenário, produzia tudo e botava a família lá pra assistir. Paralelo ao meu primeiro curso de teatro, com 13 ou 14 anos já comecei a dirigir as primeiras peças. Tive a oportunidade de montar, por exemplo, “Sonho de uma noite de verão”, de Shakespeare, com vinte e cinco pessoas no elenco.  Trabalhei voluntariamente na escola que fiz o ensino fundamental, onde tive a oportunidade de dirigir os alunos de lá também. Fui adquirindo essa bagagem, até ter as primeiras experiências profissionais como diretor dentro do Coletivo Cê. Foi lá que eu aprendi muito e tive a oportunidade de dirigir praticamente todos os espetáculos do grupo. Tive também a oportunidade de ser assistente de direção do Fernando Neves, que é um grande diretor de São Paulo, que dirigiu nosso espetáculo em parceria com o Circo-teatro Guaraciaba.

Tem algum trabalho ou personagem que você tenha como favorito ou marcado sua carreira?

Julio: Nossa, é muito difícil responder essa. Porque cada personagem representa uma fase, e você tem um carinho muito especial por ele, então é muito difícil dizer qual é o favorito. Nessas horas eu consigo me colocar no lugar de uma mãe, que é desafiada com  a pergunta: qual é seu filho favorito? Porque é essa sensação que eu tenho, cada personagem é um filho, porque você leva muito tempo pra construir, não é do dia pra noite, é um processo, são meses de ensaio pra ele se aprimorar, são anos de apresentação muitas vezes. Tem personagem que exige muito esforço físico e eu sempre gostei de personagens desafiadores. Me sinto realizado quando eu consigo colocar em cena. Tem outros que envolvem muita pessoalidade, coloca-se muito de si no personagem, então isso acaba te afetando de diversas formas, mexe com muita coisa interna, isso é um grande desafio. Tem também aqueles personagens que você tem prazer em fazer, é sempre delicioso fazer, que é confortável. Mas eu não sei dizer um personagem não.

Na sua visão, como está sendo para a classe artística enfrentar esse momento de pandemia que estamos vivendo?

Julio: Tem sido um momento muito delicado pros artistas em geral. Falo primeiro por nós mesmos, Coletivo Cê, tínhamos vários projetos em andamento e em circulação que a gente levou meses criando, produzindo, e de repente vimos tudo desaparecer. Alguns projetos foram paralisados, outros cancelados, então foram meses de trabalho jogados no lixo e a gente se viu sem perspectiva, porque o nosso trabalho envolve aglomeração, então provavelmente será o último a ser retomado normalmente, se é que vai existir essa normalidade novamente. Muitos artistas estão passando dificuldade, existem várias redes de apoio com movimento de doação de cesta básica, além das leis que a gente ta lutando pra conseguir. Mas é muito difícil, porque as pessoas não tem consciência de que o artista não é só aquele da televisão ou aquele da Netflix. Então é muito difícil porque  não temos nem o apoio da população.

Você tem feito a alegria dos seus seguidores com seus vídeos humorísticos na internet e recentemente bateu a marca de dois milhões de visualizações. Como surgiu a ideia de fazer os vídeos?

Julio: A ideia de produzir esses vídeos veio da atual situação. Eu me vi trancado em casa, com os meus projetos todos paralisados. Me vi sem perspectiva e comecei a perceber vários amigos numa onda depressiva, de ansiedade. Então percebi que precisava fazer alguma coisa por mim, ocupar a minha mente, porque o artista não para, nós estamos sempre criando, a gente precisa dar vazão pra essa criatividade. Mas foi uma grande surpresa quando meu segundo vídeo viralizou, que foi do personagem Pandemilson, que eu criei pra falar de questões relacionadas a pandemia. De repente eu me vi com fãs, com pessoas que gostam do meu trabalho e que me acompanham. Sempre tive uma trava muito grande em me ver no vídeo. Sempre foi algo que eu tinha o desejo de fazer, mas sempre deixava pra depois. E ai o isolamento me pôs a prova, “e agora, você vai deixar pra depois?”. Tenho me sentido muito realizado. Tenho tido retornos muito positivos, de muita gente falando que os meus vídeos estão fazendo bem. Estou muito feliz com essa nova janela que abri pra minha vida.

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O personagem Pandemilson foi criado para abordar acontecimentos voltados a quarentena de forma humorística e seu vídeo já tem mais de 2 milhões de visualizações – Foto: Arquivo Pessoal

O Cerotinho é um dos seus personagens mais divertidos. Como surgiu a ideia para construir ele?

Julio: O Cerotinho é um dos grandes presentes da minha vida mesmo. Ele surgiu sem grandes expectativas no espetáculo “Desmedida”, tinha um momento que a gente recebia o público numa hospedaria e a gente tratava o público como os imigrantes que chegavam para trabalhar na fábrica. E ai precisava de uma pessoa pra dar assistência, como eu era o diretor,  peguei um uniforme de faxineiro e entrei pra passar pano no chão. E ai caso alguém precisasse de alguma coisa, ele dava assistência. Então ele nem falava a principio. E ai eu comecei aos poucos, a criar. E se essa figura fosse fanha? Comecei a perceber que o personagem tinha muito carisma e conquistava as pessoas. O espetáculo tinha três horas de duração, e ele só aparecia na primeira cena, mesmo assim, o público saia falando dele. Eu pensei, “aí tem um personagem que não da pra perder!”. É um personagem que eu amo muito porque ele tem uma pureza, uma inocência, que é difícil hoje em dia de encontrar.  Agora tive a oportunidade de lançá-lo no mundo virtual e tem muita gente gostando dele.

Quais são seus hobbies? Você realmente tem uma paixão por plantas como seu personagem Pandemilson?

Julio: Sempre fui fascinado por plantas. O meu avô, pai da minha mãe, que eu não tive a oportunidade de conhecer, amava plantas. Então eu tenho a sensação que eu herdei essa paixão dele. Quando eu fui pra São Paulo, fui transformando o corredor do meu apartamento em uma floresta amazônica.  Mas a paixão por suculentas surgiu agora mesmo no isolamento. Eu falei pra um amigo “eu to viciado em suculentas, comprei um monte no mercado” e ele falou “porque você não faz um vídeo?” Ai eu fiz o vídeo despretensiosamente e foi esse vídeo que viralizou com dois milhões de visualizações até agora.

Qual será a primeira coisa que o Julio Mello vai fazer quando acabar a quarentena?

Julio: Acho que sair abraçando todo mundo, qualquer pessoa que eu encontrar na rua eu vou abraçar (risos). É brincadeira, mas eu to com um desejo incontrolável de abraçar as pessoas. Como a gente sente falta do toque, né? Eu pelo menos sou uma pessoa da proximidade, da relação ali, o tempo todo com as pessoas, seja com os meus alunos, com a minha família. Então eu sinto falta desse carinho, desse toque, dessa presença. Não sei se vou fazer uma festa ou vou pra uma festa, mas eu to querendo dançar, extravasar, me divertir um pouco. E retomar os trabalhos, os espetáculos que eu to com muita saudade de apresentar e de ter a relação direta com o público também.

Saiba mais sobre o artista em:

Instagram: instagram.com/juliomello0

Facebook: https://facebook.com/ojuliomello

Youtube: www.youtube.com/channel/UCU8h2OixC3wR77uAlrZlAkw

Coletivo Cê: https://facebook.com/coletivoce

 

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